Lisi prestes
Ele era apenas uma criança como todas as outras daquele
pequeno vilarejo.
Um tanto quanto esquisito e sem uma beleza muito evidente,
porém havia em seus olhos um brilho radiante, que atraía as pessoas, sabe? Do tipo: olhos que falavam sem palavras!
Falante e risonho, o garoto soltava palavras doces e
encantadoras com tanta naturalidade, que não havia como não ficar encantado com
as virtudes do pequeno sábio, como era chamado.
Os amigos que outrora eram companheiros de brincadeiras, aos
poucos foram tornando-se aconselhados, e o jovem sábio, por sua vez, seu guru
conselheiro.
Havia um grande prazer na servidão, auxílio e estender de
mãos! Quer fossem em palavras, atos e caridades, o jovem sábio tinha certeza
que estava fazendo aquilo que era certo.
Tal era seu prazer, que aprofundara suas habilidades única e
exclusivamente para ser útil a outrem.
Teve a grande ideia de fazer um pomar diversificado de
frutos excelentes, os quais davam na estação correta o seu devido fruto e
muitos daquele lugar saciavam sua fome.
Muitas vezes ele desejou comer dos frutos, mas lembra-se sempre
que poderia faltar a alguém.
Doou-se desmedidamente, tanto que adoeceu.
As canções já não pareciam tão melódicas assim, seu caminhar
tornou-se lento e doloroso.
O velho sábio isolou-se em sua casa, de janelas fechadas,
pois não queria ver a luz do sol.
Assim seguia sua escura e dolorosa solidão.
Certo dia levanta-se com dificuldade de sua cama e olhou no
espelho, vendo seus cabelos desgrenhados e barba longa, profundas olheiras e já
não tinha o sorriso de outrora.
A solidão o fez perceber que nem sempre ele seria o velho
sábio (mesmo não sendo tão velho assim), então decidiu mudar!
Abriu as janelas, espantou a poeira, limpou a casa e
enfeitou.
Cortou o cabelo, fez a barba, trocou as vestes surradas por
vestes novas e sorriu novamente como nunca!
Sentou-se no pomar e comeu todos os frutos deliciando-se em
cada sabor, cada cor, cada cheiro. Curtiu o sol sentado ao vento e ao som dos
pássaros numa tarde que antes era deveras laboriosa.
Dançou na chuva, riu das coisas simples e seu olhar teve o
brilho da infância novamente.
O jovem homem percebeu que para ser feliz ele não precisava
ser o velho sábio cheio de conselhos e auxílios em todo o tempo e que para ser
e fazer, ele não precisava ser tudo e todos. Ele precisava única e
exclusivamente ser feliz, com ele mesmo!


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